Existe um momento em toda tendência dominante em que ela começa a cansar. Não porque ficou feia — mas porque ficou previsível. A clean girl chegou assim: refrescante, leve, acessível. E por um bom tempo, funcionou. Mas quando todo feed parece igual, quando toda maquiagem aponta para o mesmo resultado, o mercado começa a pedir o oposto.
A Gucci entregou esse oposto. E não foi de forma tímida.

Uma noite que não acabou
O desfile Cruise 2026 apresentado em Nova York trouxe uma proposta de beleza que parece ter sido construída às três da manhã. Não por descuido — por escolha. O maquiador Sam Visser criou um smoky eye negro esfumado de propósito, sem a precisão de um traço limpo, sem a intenção de parecer recém-feito.
É uma maquiagem que conta uma história. De alguém que saiu com tudo pronto e chegou ainda mais interessante do que quando foi. O delineador que migrou, o olho que intensificou, a noite que deixou marca — e tudo isso foi transformado em estética de passarela.
Combinado com sobrancelha ultrafina e lábios vermelhos ou nudes de contorno marcado, o resultado é um rosto que não tenta passar despercebido.

O que Demna está fazendo na Gucci
Desde que assumiu a direção criativa da casa italiana, Demna deixou uma coisa clara: sua intenção não é dar continuidade. É reposicionar.
O Cruise 2026 busca referências na era mais provocadora da Gucci — aquela fase do fim dos anos 90 em que a marca era sinônimo de sensualidade sem filtro. Não é nostalgia pelo passado, é uma releitura com vocabulário atual. Demna pega o espírito daquela época — o excesso calculado, o desejo construído, a beleza que não pede licença — e traduz para 2026.
As roupas dividiram. A beleza, curiosamente, uniu. Quase todo mundo que viu o desfile parou nas imagens da maquiagem.

Por que essa beleza chama atenção
Tem algo no olhão esfumado com sobrancelha fina que ativa uma memória coletiva. É uma combinação que remete a décadas específicas — anos 90, início dos 2000 — quando a maquiagem era visivelmente maquiagem, sem a preocupação de parecer natural.
Durante anos, o mercado caminhou na direção contrária: menos produto, mais pele, mais leveza. Esse movimento teve sua razão de ser. Mas o que a Gucci mostra é que existe espaço — e desejo — pelo oposto. Por uma beleza que declara presença antes de qualquer palavra.
Não é uma estética do dia a dia. É uma estética do momento. De quando você quer ser vista de um jeito específico e faz isso acontecer.

O que fica disso tudo
Tendências de passarela raramente chegam inteiras no cotidiano. Elas chegam em fragmentos — uma referência aqui, uma releitura ali. A sobrancelha ultrafina provavelmente não vai dominar as ruas amanhã. Mas o olhar mais marcado, a maquiagem menos apologética, a disposição de exagerar um pouco mais — isso vai aparecer.

A Gucci não está dizendo o que você deve usar. Está mostrando para onde o desejo está se movendo. E quando uma das maiores casas do mundo aponta numa direção, vale pelo menos prestar atenção.

Mesmo que seja só para decidir que prefere o blush na ponta do nariz mesmo.